A inflação oficial perdeu força no acumulado de 12 meses, mas o alívio ainda não chegou por inteiro ao orçamento das famílias. Por trás do número cheio do IPCA, cresce a percepção de uma pressão mais difícil de medir no dia a dia: a chamada inflação invisível.
Esse fenômeno não aparece como um indicador formal, mas descreve algo cada vez mais reconhecível para o consumidor: pagar mais sem perceber de imediato. Às vezes, isso acontece no supermercado, quando a embalagem mantém o visual, mas entrega menos produto. Em outras, surge nas mensalidades escolares, nos planos de saúde, nas taxas bancárias, nos serviços e nas contas domésticas.
Os dados mais recentes ajudam a explicar essa sensação. Em fevereiro, a inflação oficial foi de 0,70%, com forte impacto dos reajustes de escolas e cursos. O grupo Educação subiu 5,21% no mês e sozinho respondeu por cerca de 44% do índice. Transportes também pesou, impulsionado pela alta das passagens aéreas.
Na prévia de março, o foco mudou, mas o aperto continuou. Alimentação e bebidas subiram 0,88%, com aceleração da alimentação no domicílio para 1,10%. Entre os itens que pressionaram apareceram açaí, feijão-carioca, ovo, leite longa vida e carnes. Ao mesmo tempo, despesas pessoais avançaram 0,82%, com destaque para serviços bancários, enquanto plano de saúde também subiu.
É nesse ponto que a inflação invisível ganha força. Mesmo quando o índice agregado desacelera, o orçamento da família continua corroído em áreas que têm pouco espaço para corte. Escola, alimentação básica, tarifas, saúde e serviços são gastos recorrentes, difíceis de substituir e muito perceptíveis no fim do mês.
Há ainda a reduflação, prática em que o produto encolhe sem uma redução equivalente no preço. O debate avançou no Congresso depois que o Senado aprovou um texto para ampliar a exigência de alerta nas embalagens. Hoje, a legislação infralegal já determina que a mudança quantitativa seja informada por seis meses, mas a discussão mostra que a transparência atual é vista como insuficiente por parte dos parlamentares e órgãos de defesa do consumidor.
No campo macroeconômico, a resposta segue passando por juros altos. O Banco Central reduziu a Selic para 14,75% em março, mas mantém cautela porque as expectativas continuam acima da meta. O quadro mostra um país em que a inflação cheia está longe de um descontrole, mas a inflação percebida ainda pesa fortemente sobre renda, consumo e confiança.
Em resumo: a inflação invisível é a distância entre o indicador oficial e a sensação real do consumidor. E, neste momento, essa distância continua grande.






























