De 39 mulheres assassinadas por feminicídio em 2019 para 53 em 2025, Mato Grosso atravessa quase oito anos de gestão sem conseguir produzir queda sustentada no indicador; relatório da própria Polícia Civil reconhece insuficiência das políticas atuais
Qua Notícias | Especial
Quase oito anos de governo, novos programas, campanhas, medidas protetivas, Patrulha Maria da Penha, auxílio-moradia, estruturas administrativas e dezenas de milhões de reais destinados à proteção das mulheres.
Mesmo assim, o dado mais importante continua resistente: Mato Grosso não conseguiu reduzir de maneira sustentada os feminicídios.
Em 2019, primeiro ano da atual gestão estadual, foram registrados 39 feminicídios. Em 2020, o número saltou para 62, maior marca da série. Depois houve queda, mas não uma trajetória consistente de redução: foram 43 casos em 2021, 47 em 2022, 46 em 2023 e 47 em 2024. Em 2025, o número voltou a subir e chegou a 53 vítimas, segundo relatório da Polícia Judiciária Civil.
Comparando apenas 2019 e 2025, o número absoluto passou de 39 para 53, uma elevação de aproximadamente 36%.
A pandemia ajuda a explicar a excepcionalidade de 2020, mas não resolve a questão central: depois da redução observada em 2021, o Estado permaneceu durante anos estacionado na faixa de 43 a 53 feminicídios anuais, sem consolidar uma curva descendente. A própria Polícia Civil descreveu o período de 2021 a 2024 como de “relativa estabilidade” em patamares elevados e apontou agravamento em 2025.
Mato Grosso chegou ao topo nacional
O problema não aparece apenas nos números absolutos.
No Anuário Brasileiro de Segurança Pública referente a 2024, Mato Grosso apresentou taxa de 2,5 feminicídios por 100 mil mulheres, contra 1,4 no Brasil.
Foi a maior taxa entre as unidades da Federação naquele levantamento, à frente de Mato Grosso do Sul, com 2,4, e Piauí, com 2,3.
Os números da própria Secretaria de Segurança Pública estadual são semelhantes: o anuário de 2024 registra 47 vítimas e taxa de 2,59 por 100 mil mulheres.
Portanto, ao final do sexto ano completo da atual administração, Mato Grosso não estava apenas acima da média brasileira: aparecia no grupo mais crítico do país.
2025 piorou novamente
Em vez de apresentar redução após 2024, o Estado terminou 2025 com 53 feminicídios, aumento de aproximadamente 13% sobre os 47 registrados no ano anterior.
O diagnóstico produzido pela Diretoria de Inteligência da Polícia Civil é particularmente relevante porque não se trata de uma crítica de oposição ou de uma entidade externa.
É um documento produzido pelo próprio sistema estadual de segurança.
Ao analisar o crescimento, o relatório afirma que o cenário aponta para “insuficiência das políticas públicas atualmente implementadas” e reconhece que os mecanismos institucionais de proteção não têm conseguido conter de maneira eficaz o aumento da violência letal contra mulheres.
Essa talvez seja a constatação mais importante de toda a série histórica.
Não é necessário que adversários políticos classifiquem a política estadual como insuficiente. A própria Polícia Civil chegou a essa conclusão em seu relatório técnico.
R$ 93,4 milhões em um ano — mas o indicador final piorou
O governo estadual informa que destinou, somente em 2025, R$ 93,4 milhões para ações integradas de proteção e assistência a mulheres e meninas em situação de violência doméstica e familiar.
Também houve expansão institucional.
Em 2024 foi criada na Polícia Civil uma Coordenadoria de Enfrentamento à Violência contra a Mulher e Vulneráveis. Em 2025 surgiu a Secretaria Adjunta de Políticas Públicas para Mulheres. No mesmo ano, foi instituído um Plano Estadual de Enfrentamento à Violência contra a Mulher e avançou a criação de um gabinete destinado a integrar diferentes secretarias e Poderes.
Isso demonstra que existiram ações e investimentos.
O problema é outro: o resultado final que deveria justificar essa expansão institucional — mulheres deixando de morrer — não acompanhou o volume das iniciativas.
Em 2024 foram 47 mortes.
Depois de novos programas, novas estruturas e investimentos, 2025 terminou com 53.
É uma diferença fundamental entre medir atividade administrativa e medir resultado.
Número de campanhas, viaturas, programas e reuniões demonstra que a máquina pública trabalhou. Redução de feminicídios demonstraria que a política conseguiu alterar o desfecho mais grave.
E é justamente nesse indicador que Mato Grosso continua encontrando dificuldades.
Patrulha Maria da Penha cresceu significativamente
Também seria incorreto ignorar os avanços de proteção individual.
Em 2023, a Patrulha Maria da Penha estava presente em 98 municípios, recebeu 21.223 medidas protetivas encaminhadas pela Justiça, realizou 9.026 visitas e registrou atendimento a 7.021 mulheres.
No mesmo ano, o Estado possuía nove delegacias especializadas de defesa da mulher e 19 salas especializadas para atendimento de mulheres e crianças. Mais de 5 mil solicitações de botão do pânico haviam sido deferidas.
Em 2024, mais de 17,5 mil medidas protetivas foram concedidas. Entre as 47 mulheres assassinadas naquele ano, apenas quatro tinham medida protetiva, sendo que três estavam com a proteção vencida após retomarem o relacionamento. Esses dados são usados pelo Judiciário para defender a importância da denúncia e das medidas de proteção.
Esse é um dado relevante porque impede uma conclusão simplista de que “tudo fracassou”.
Alguns mecanismos conseguem efetivamente proteger mulheres que entram na rede.
O grande desafio está antes disso: alcançar quem permanece fora do sistema e impedir que casos conhecidos evoluam para morte.
Em 2025, sete mulheres morreram mesmo com medida protetiva ativa
Nesse ponto, o relatório de 2025 apresenta outro alerta grave.
Dos 53 feminicídios analisados pela Polícia Civil, apenas 20% das vítimas haviam registrado formalmente denúncia contra o homem que posteriormente as matou.
Sete vítimas — aproximadamente 13% do total — estavam com Medida Protetiva de Urgência ativa no momento em que foram assassinadas. Duas também dispunham do SOS Mulher.
Ou seja, existem dois problemas simultâneos.
De um lado, 80% das mulheres assassinadas não haviam denunciado formalmente o futuro autor do feminicídio, o que limita a capacidade preventiva do Estado.
De outro, houve mulheres que entraram no sistema, receberam proteção judicial e ainda assim foram mortas.
Esse segundo grupo exige uma análise particularmente rigorosa sobre fiscalização das medidas protetivas, avaliação de risco, monitoramento dos agressores e capacidade de resposta em situações de ameaça extrema.
A dependência econômica também entrou na política estadual — somente em 2023
Uma das barreiras conhecidas para romper relacionamentos violentos é a dependência econômica.
Em agosto de 2023, o governo lançou o SER Família Mulher, prevendo auxílio-moradia de R$ 600 para mulheres sob medida protetiva e em situação de vulnerabilidade.
Em 2024, 445 mulheres foram incluídas no benefício, segundo o Relatório Anual de Gestão. A Desenvolve MT informa que mais de R$ 2,2 milhões foram repassados naquele ano.
A iniciativa ataca um fator real de permanência no ciclo de violência.
Mas também chama atenção o momento em que essa política estruturada de autonomia financeira ganhou forma: quase cinco anos após o início da atual gestão estadual.
Em 2026, a violência continua produzindo vítimas
O problema não terminou com o fechamento dos números de 2025.
Até meados de junho de 2026, Mato Grosso já havia registrado 22 feminicídios, segundo dados apresentados pelo Tribunal de Justiça.
Até agosto, uma vereadora de Cuiabá citou 31 casos em 2026, ao cobrar ampliação da Patrulha Maria da Penha, delegacias especializadas, botão do pânico e capacitação dos agentes. Como se trata de número parcial, não deve ser comparado diretamente aos totais anuais anteriores.
Ainda assim, mostra que a crise permanece aberta.
Quase oito anos depois, qual resultado deve ser cobrado?
O governo pode demonstrar investimento.
Pode apresentar novos órgãos.
Pode mostrar milhares de medidas protetivas expedidas, patrulhas, operações policiais, campanhas educativas e auxílio financeiro.
Tudo isso faz parte da política pública e precisa ser registrado.
Mas existe uma pergunta que permanece depois de quase oito anos:
essas medidas conseguiram reduzir consistentemente o número de mulheres mortas por serem mulheres?
Até 2025, os próprios números oficiais dizem que não.
Mato Grosso começou a atual gestão com 39 feminicídios em 2019 e chegou a 53 em 2025. Passou por um pico de 62 em 2020 e, depois disso, não estabeleceu uma tendência contínua de queda.
Em 2024, apresentou a maior taxa de feminicídio do país segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
E em 2025, o próprio relatório da Polícia Civil estadual reconheceu que as políticas implementadas eram insuficientes diante dos desafios existentes.
É possível discutir as causas — cultura de violência, subnotificação, dependência econômica, baixa procura pela rede, reincidência de agressores, extensão territorial e dificuldade de cobertura no interior.
O que os números não permitem é apresentar o problema como resolvido.
Depois de quase dois mandatos completos, Mato Grosso ainda não conseguiu transformar ampliação de estrutura e investimento público em uma redução sustentada da sua forma mais extrema de violência contra a mulher.
Essa é a cobrança objetiva que os dados permitem fazer à gestão estadual.
E, diante de dezenas de mulheres mortas todos os anos, é uma cobrança que não pode ser substituída apenas pela divulgação de novas campanhas, programas e anúncios institucionais.































